Modos verbais em tupi antigo

Os modos verbais em tupi antigo, bem como a conjugação em cada um deles, são apresentados de forma sumária na tabela a seguir..

A principal classificação dos verbos em tupi é entre suas formas nominais e verbais. A principal diferença entre elas é a morfologia. Alguns verbos são chamados de ditemáticos. Manõ, morrer, vira e’õ, em suas formas nominais. Contudo, a maioria dos verbos são monotemáticos, como é o caso dos verbos da tabela.

Tal sistematização dos modos verbais não é facilmente encontrada na internet, e minha intenção é suprir essa lacuna. Não pretendo aqui fornecer mais que uma breve explicação de cada um dos modos, pois a gramática do tupi é complexa (o curso do Navarro tem mais de 600 páginas), e a maioria dos verbos sofrem intricadas transformações fonéticas que devem ser estudadas com cuidado.

Por isso, escolhi – com certa dificuldade – verbos que são inteiramente regulares e que não apresentam tais transformações. Como as formas verbais são as mais simples, começemos por elas.

Modo indicativo

Igual ao indicativo do português. Detalhe: a mesma conjugação vale para todos os tempos verbais. Portanto, ixé a-gûatá pode significar eu caminho, eu caminhei, ou eu caminharei (neste último caso usa-se a partícula enclítica -ne para indicar o futuro, mas ela não faz parte da conjugação verbal e pode estar afastada do verbo).

Modo permissivo

Semelhante ao subjuntivo do português. Que eu caminhe, que tu caminhes, etc. O modo permissivo pode também suprir as lacunas do imperativo, que só possui a segunda pessoa do singular e do plual. Isto é, para expressar uma ordem ou sugestão em primeira pessoa, podemos fazer uso do permissivo: t’îasó akûeîpe: vamos ali.

Modo imperativo

Como já dito, ocorre na segunda pessoa do singular e do plural. É semelhante à conjugação dessas mesmas pessoas no modo indicativo, com a diferença de que o ere- vira e- no singular. Ere-gûatá, tu caminhas. E-gûatá! Caminha!

Gerúndio dos verbos intransitivos

Recebem prefixos número-pessoais assim como os demais modos das formas verbais. Contudo, a primeira e a segunda pessoa do singular mudam: gûi-gûatá e e-gûatá, respectivamente. O resto segue o padrão do modo indicativo.

Há mais de uma maneira de formar o gerúndio. Os verbos terminados em vogais recebem -abo ou -bo ao final. Os terminados em consoantes recebem -a. Existe ainda um caso não contemplado na tabela: o dos verbos terminados em -r. Estes perderão essa letra no gerúndio: ker (dormir) vira ké (dormindo).

Modo indicativo circunstancial

Nele, usa-se a forma nominal do verbo. As formas nominais não apresentam prefixos número-pessoais.

O indicativo circunstancial possui a mesma função do indicativo, só que é usado quando uma circunstância (tempo, lugar, modo, etc) vem antes do sujeito da oração. Poranto: ixé a-gûatá kori, eu caminho hoje (modo indicativo normal; circunstância vem depois). Kori xe gûatáû: hoje eu caminho (circunstância vem antes do sujeito). Percebe-se também que os pronomes pessoais usados no indicativo circunstancial são os de segunda classe; por isso ixé vira xe.

Assim como o gerúndio, o circunstancial é formado seguindo dois padrões: os verbos terminados em vogal receberão ; os terminados em consoante, -i.

Com pronomes objetivos tônicos

Para compreender esse modo, é preciso estar mais adiantado nos estudos de tupi antigo, e não há forma simples de explicá-lo. Basta dizer aqui que este modo se aplica quando o objeto não for de terceira pessoa. Nesses casos, será usada a forma básica do verbo, sem nenhum tipo de acréscimo ou modificação. Exemplo: ixé oro-îuká, eu te mato. Note que oro- aqui não é um prefixo número-pessoal como no caso indicativo, mas um pronome pessoal oblíquo (ou objetivo): te.

Infinitivo

É a forma substantiva do verbo. Todos os substantivos em tupi terminam em vogal. Se o verbo terminar em consoante, receberá o sufuxo -a. Portanto, nhana (do verbo nhan) significa o correr, a corrida; gûatá, o caminhar, a caminhada.

Gerúndio dos verbos transitivos

Sofre as mesmas modificações do gerúndio dos verbos intransitivos, mas não apresenta os prefixos número-pessoais.

O gerúndio tem duas finalidades principais: transmitir a ideia de continuidade (como em português) e de finalidade. Portanto, (ixé) Pedro îukábo pode ser traduzido para “matando (eu) Pedro” ou “para eu matar Pedro”. A-îur Pedro îukábo: vim para matar Pedro.